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19 de Julho, 2026 - 08:23
MPF aciona agência por falha que favorece 'lavagem' de ouro ilegal


                       Ação civil aponta irregularidades em permissões de lavra garimpeira. Metal de terras indígenas é vendido como produto regular



O Ministério Público Federal (MPF) ingressou com uma ação civil pública, com pedido de liminar, contra a Agência Nacional de Mineração (ANM), acusando o órgão de omissão na fiscalização do garimpo e de manter falhas estruturais que favorecem a lavagem de ouro extraído ilegalmente, na Amazônia Legal.



 



Mato Grosso aparece entre os estados com maior número de Permissões de Lavra Garimpeira (PLGs) consideradas suspeitas.



A ação tem como base um levantamento do Greenpeace Brasil e uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU), que identificaram irregularidades em 98 permissões de lavra distribuídas entre Mato Grosso, Pará e Rondônia.



Segundo o MPF, essas autorizações permitiram a declaração de produção de 25,3 toneladas de ouro, entre 2018 e março de 2026, volume avaliado em aproximadamente R$ 18,4 bilhões.



Na avaliação do órgão, parte dessas permissões funciona como "garimpos fantasmas": áreas formalmente autorizadas que registram grandes volumes de produção sem apresentar evidências físicas compatíveis com a atividade minerária.



Na prática, serviriam apenas para dar aparência de legalidade ao ouro extraído clandestinamente em terras indígenas, unidades de conservação e outras áreas protegidas.



"A permissão de garimpo deixou de servir ao pequeno garimpeiro e, em muitos casos, virou papel de fachada para lavar ouro explorado por organizações criminosas em terras indígenas e áreas de proteção ambiental. Sem regras claras e sem fiscalização da agência, o crime ganha aparência de legalidade", afirmou o procurador da República André Porreca, responsável pela ação.



MT CONCENTRA CASOS INVESTIGADOS - Entre os exemplos apresentados pelo MPF, estão operações localizadas na Região Norte de Mato Grosso, especialmente nos municípios de Peixoto de Azevedo (a 691 km de Cuiabá) e Matupá (a 695 km).



Um dos casos envolve três permissões de lavra da Cooperativa dos Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto (Coogavepe), que somam 5.421 hectares.



Entre março de 2018 e abril de 2026, essas áreas registraram 1.607 declarações de produção, totalizando 5.080 quilos de ouro, avaliados em cerca de R$ 3,7 bilhões.



O relatório aponta que imagens de satélite revelam cavas, tanques de decantação e áreas de solo exposto distribuídos de forma contínua, sem respeitar os limites individuais de cada título minerário.



A mesma cooperativa possui outras dez permissões contíguas, totalizando mais de 8 mil hectares, responsáveis pela declaração de outros 2.557 quilos de ouro, estimados em R$ 1,8 bilhão.



Outro agrupamento investigado envolve títulos pertencentes à Mineradora São Matheus Ltda. e à própria Coogavepe, em Matupá.



Segundo o MPF, as áreas funcionariam como um único empreendimento minerário, embora formalmente pertençam a titulares distintos.



Para os investigadores, esses arranjos indicam fortes evidências de fraude documental, lavagem de ouro e tentativa de burlar as exigências ambientais e minerárias aplicáveis a empreendimentos de maior porte.



Na ação, o MPF sustenta que a ANM deixou de regulamentar aspectos fundamentais da legislação que disciplina as permissões de lavra garimpeira, mesmo após mais de três décadas da criação desse regime.



Entre as omissões apontadas estão a ausência de critérios técnicos para definir quando uma área pode receber autorização para garimpo, a falta de fiscalização efetiva sobre a produção declarada e a inexistência de mecanismos capazes de impedir o uso fraudulento das permissões.



Segundo o Ministério Público, essas lacunas permitem que organizações criminosas utilizem títulos minerários regulares para "esquentar" ouro retirado ilegalmente de outras regiões.



MUDANÇAS EXIGIDAS - Na ação judicial, o MPF pede que a Justiça obrigue a ANM a promover uma ampla reformulação do sistema de fiscalização.



Entre as medidas solicitadas estão:



- criação, em até 30 dias, de um grupo técnico para revisar o regime das permissões de lavra garimpeira;

- instauração, em até 60 dias, de um programa nacional para reavaliar todas as PLGs que declararam produção incompatível com a atividade observada em campo;



- suspensão cautelar das permissões consideradas suspeitas;

- comunicação dos indícios de crimes à Polícia Federal, Receita Federal, Coaf e Banco Central;

- elaboração, em até 120 dias, de novos critérios técnicos para concessão e renovação das permissões de lavra.



O MPF também defende que futuras autorizações somente sejam concedidas após estudos geológicos, licenciamento ambiental prévio e análise integrada quando houver áreas contíguas pertencentes ao mesmo grupo econômico.



ESTRUTURA INSUFICIENTE - Em resposta aos questionamentos do Ministério Público, a Agência Nacional de Mineração reconheceu limitações na fiscalização do setor.



Segundo a própria autarquia, a comercialização do ouro não é acompanhada diretamente pela agência e apenas 120 servidores atuam na fiscalização mineral em todo o território nacional.



Para o MPF, essa deficiência institucional contribui para prejuízos econômicos e tributários, além de agravar impactos ambientais, como o avanço do desmatamento na Amazônia, a contaminação de rios por mercúrio e os danos às comunidades indígenas e tradicionais afetadas pelo garimpo ilegal.



O Ministério Público ressalta que a ação não busca responsabilizar garimpeiros específicos, mas promover mudanças estruturais capazes de impedir que as fraudes continuem sendo reproduzidas em larga escala no sistema mineral brasileiro.


Fotos por: Reprodução/MPF-MT
Fonte: JOANICE DE DEUS Da Reportagem
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11 de Julho, 2026 - 16:16
País registra menor desmate da Amazônia em dez anos; MT ainda lidera perdas


Brasil alcança o menor índice de alertas de desmatamento no primeiro semestre desde o início da série histórica do Deter, mas Mato Grosso continua no topo dos estados que mais desmataram a Amazônia em 2026



O Brasil registrou, no primeiro semestre de 2026, o menor índice de alertas de desmatamento da Amazônia desde o início da série histórica do sistema Deter, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), iniciada em 2016. Entre janeiro e junho, foram identificados 1.295 quilômetros quadrados de vegetação nativa sob alerta de supressão, resultado 38% inferior ao verificado no mesmo período do ano passado e considerado o melhor desempenho dos últimos dez anos.



No Cerrado, o cenário também apresentou melhora. Os alertas somaram 3.142 quilômetros quadrados, o menor volume desde 2021 e uma redução de 6% em relação ao primeiro semestre de 2025. Somados, os dois maiores biomas brasileiros perderam 4.437 quilômetros quadrados de vegetação nativa, área equivalente a quase três vezes o território da cidade de São Paulo.



Apesar do avanço nacional, Mato Grosso continua ocupando posição de destaque negativo. O Estado lidera o ranking de desmatamento na Amazônia Legal em 2026, com 489 quilômetros quadrados de áreas sob alerta de desmate, à frente do Pará, com 391 quilômetros quadrados, e do Amazonas, com 184 quilômetros quadrados.



O desempenho reforça um desafio histórico para Mato Grosso, que concentra parte significativa da Amazônia brasileira e também abriga a maior área de Cerrado do Centro-Oeste. Ao mesmo tempo em que lidera a produção nacional de grãos e possui um dos maiores rebanhos bovinos do país, o Estado permanece sob pressão para conciliar expansão econômica com preservação ambiental.



Os dados divulgados pelo Inpe nesta sexta-feira (10) servem como base para orientar ações de fiscalização ambiental. O sistema Deter produz alertas quase em tempo real, enquanto o balanço oficial do desmatamento é calculado pelo Prodes, também do Inpe, divulgado anualmente com metodologia mais precisa.



Para o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, os resultados demonstram que a redução do desmatamento deixou de ser pontual e passou a ocorrer de forma contínua.



Segundo ele, o país vive um processo de "redução sobre redução", reflexo da atuação integrada entre governo federal, estados e municípios, além do fortalecimento dos órgãos de fiscalização e da retomada de políticas públicas de combate ao desmatamento.



Especialistas avaliam que a queda também está ligada ao aumento da responsabilização de infratores. De acordo com o coordenador-geral do MapBiomas, Tasso Azevedo, em 2019 apenas cerca de 5% das áreas desmatadas recebiam algum tipo de ação de controle ou responsabilização. Em 2025, esse percentual já alcançava aproximadamente 65%.



Mesmo assim, ele ressalta que o Brasil continua entre os países que mais desmatam no mundo em números absolutos e que o desafio é transformar a redução observada nos últimos anos em uma tendência permanente, permitindo ao país se aproximar da meta de desmatamento zero até 2030.



Outro fator que exige atenção é a previsão de atuação do fenômeno El Niño durante o segundo semestre. A expectativa é de uma estiagem mais intensa sobre as regiões Norte, Centro-Oeste e parte do Nordeste, aumentando o risco tanto de novos desmatamentos quanto de incêndios florestais.



Em Mato Grosso, a preocupação é ainda maior devido à combinação entre altas temperaturas, baixa umidade e extensa cobertura vegetal, principalmente nas áreas de transição entre Amazônia, Cerrado e Pantanal. Historicamente, o período entre julho e setembro concentra os maiores índices de queimadas e de abertura de novas áreas.



A dinâmica do desmatamento também varia entre os biomas. Na Amazônia, a maior parte da derrubada ocorre em áreas públicas invadidas ou unidades de conservação. Já no Cerrado, predomina a supressão em propriedades privadas, favorecida por uma legislação ambiental mais permissiva. Pelo Código Florestal, proprietários podem suprimir até 80% da vegetação em determinadas áreas do bioma, percentual muito superior ao permitido na Amazônia.



O governo federal considera que os resultados do primeiro semestre fortalecem a estratégia nacional de combate ao desmatamento, mas reconhece que estados como Mato Grosso continuarão desempenhando papel decisivo para que o país cumpra os compromissos climáticos assumidos no Acordo de Paris, já que o desmatamento permanece como a principal fonte de emissão de gases de efeito estufa no Brasil.



 



 Ranking do desmatamento na Amazônia em 2026

Estados com maior área sob alerta de desmatamento(Janeiro a junho de 2026 – Deter/Inpe)Estado Área desmatada1º Mato Grosso 489 km²2º Pará 391 km²3º Amazonas 184 km²Na Amazônia Legal

• Total desmatado: 1.295 km²• • Redução de 38% em relação ao 1º semestre de 2025• • Menor índice para o período desde o início da série histórica do Deter (2016)• No Cerrado

1. Maranhão – 839 km²2. 3. Tocantins – 825 km²4. 5. Piauí – 368 km²6. Fonte: Inpe/Deter



 


Fotos por: Reprodução/Foto meramente ilustrativa
Fonte: EDUARDO GOMES - Diário de Cuiabá
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