Na política, o tempo costuma ser o maior aliado de quem precisa apagar discursos antigos. Acusações de corrupção, vídeos inflamados, entrevistas contundentes e trocas públicas de ofensas frequentemente cedem lugar às fotografias de campanha, aos sorrisos protocolares e aos discursos sobre ‘união pelo Estado’. Em Mato Grosso, poucos movimentos ilustram melhor essa lógica do que a aproximação entre o governador Otaviano Pivetta (Republicanos) e a deputada estadual Janaina Riva (MDB), hoje cogitada como vice na chapa governista para as eleições deste ano.
Caso a composição se confirme, ela reunirá personagens que passaram os últimos anos protagonizando um dos embates políticos mais duros do Estado, marcado por acusações de corrupção, irresponsabilidade administrativa e ataques pessoais. Para o eleitor que acompanha a política e a administração pública, a aliança tem o traço marcante da ironia. Afinal, trata-se da junção de dois polos que protagonizaram os episódios mais inflamados e ruidosos dos últimos anos no Estado.
O racha mais marcante entre Otaviano Pivetta e Janaina Riva ocorreu no âmbito da Secretaria de Estado de Agricultura Familiar (Seaf). A exoneração do então secretário Luluca Ribeiro, indicação direta de Janaina e casado com sua chefe de gabinete, deflagrou uma crise interna de grandes proporções na relação. À época, o escândalo desaguou na Operação Suserano, deflagrada pela Delegacia Especializada de Combate à Corrupção (Deccor) para apurar desvios de recursos públicos na aquisição de kits de agricultura familiar por meio de emendas parlamentares.
O próprio Pivetta fez questão de assumir publicamente o protagonismo da demissão, declarando que o governo ‘cortou na própria carne’ ao receber as denúncias de irregularidades e encaminhá-las aos órgãos de controle. Entretanto, as rusgas iam muito além das investigações policiais. Historicamente ligado ao núcleo duro do governador Mauro Mendes (União), o grupo de Pivetta passou a adotar uma postura intransigente contra a atuação parlamentar de Janaina, após o seu anúncio em 2023 de que concorreria ao Senado, mesmo cargo cobiçado por Mauro. Quando a deputada encabeçou a defesa intransigente das pautas do funcionalismo público, como a Revisão Geral Anual (RGA) e reajustes salariais, a reação do Palácio Paiaguás foi contundente.
Representantes do governo foram à imprensa e às redes sociais acusar a parlamentar de mentir para a população e defender pautas ‘irresponsáveis’, capazes de quebrar o caixa do Estado, e que ‘mentia’ para a população. O tom dos embates gradativamente ultrapassou o debate programático e descambou para o ataque pessoal. Em bate-bocas via imprensa, o ex-governador Mauro Mendes declarou publicamente que Janaina, seu pai (o ex-deputado José Riva) e sua mãe entendiam ‘profundamente de corrupção’. Na mesma linha, o deputado federal Fábio Garcia (União) gravou vídeos acentuando as críticas, afirmando que ‘não havia sido criado com dinheiro de corrupção’, em alusão direta aos processos judiciais que envolvem a família Riva, e acusando a parlamentar de atuar como mera ‘marionete’ política do pai. Janaina Riva não deixou as investidas sem resposta.
Ocupando a tribuna da Assembleia Legislativa e gravando vídeos de contraponto, a deputada disparou metralhadora giratória contra o núcleo governista. Acusou a gestão de opacidade e irregularidades financeiras, destacando o polêmico acordo sigiloso de R$ 308 milhões envolvendo a transação do crédito da empresa Oi S.A. pela Procuradoria-Geral do Estado (PGE), sugerindo favorecimento a fundos e empresas ligadas à família do governador.
No auge da troca de acusações de cunho pessoal, rebateu os caciques governistas com adjetivações pesadas, chegando a declarar em tom inflamado que o governador atuava como ‘pau-mandado’ de sua esposa, a primeira-dama Virgínia Mendes.
Consenso será julgado pelo eleitor
Diante do arcabouço de adjetivos pesados como ‘corruptos’, ‘irresponsáveis’, ‘marionetes’ e ‘maus políticos’, a aproximação atual terá que convencer o eleitor. Como explicar que acusações formuladas com tanta veemência em praça pública sejam postas de lado em um estalar de dedos quando as conveniências das urnas se impõem? A resposta reside na lógica implacável do cálculo eleitoral. Pivetta necessita da capilaridade eleitoral de Janaina Riva, dona de votações expressivas no interior do Estado e forte apelo popular, enquanto a deputada enxerga na composição majoritária o degrau necessário para consolidar sua ascensão política e assegurar espaços de poder no próximo ciclo governamental.
QUEM MUDOU AFINAL?
A reconfiguração dessas alianças deixa no ar uma incógnita que transcende a disputa mato-grossense e toca no coração da cultura política brasileira. Nesta história de idas e vindas, quem afinal mudou? Será que Otaviano Pivetta repensou suas convicções sobre a conduta moral da deputada e os episódios na Seaf? Ou teria Janaina Riva relativizado as denúncias de desvios milionários e os ataques que sofreu no seio familiar? A história recente mostra que a pragmática do poder não costuma pedir desculpas. Resta saber se, na hora de depositar o voto na urna, o cidadão aceitará passivamente a explicação de que os inimigos mortais de ontem são, perfeitamente e sem sobressaltos, os parceiros ideais de hoje.