Uma análise do Rabobank aponta que a China se tornou exportadora líquida de carne de frango em 2025 e poderá se transformar em competidora relevante do Brasil no mercado internacional, ao longo da próxima década.
O movimento é sustentado pelo aumento da produção chinesa e pela geração de excedentes que precisam encontrar compradores no exterior.
A produção chinesa cresceu mais de 9% no primeiro semestre deste ano e deverá chegar a aproximadamente 17,3 milhões de toneladas em 2026, superando a produção brasileira.
O avanço ocorre principalmente sobre cortes com menor demanda no mercado doméstico chinês, que passam a ser direcionados ao exterior.
O Brasil ainda mantém ampla vantagem no comércio mundial.
Em 2025, exportou aproximadamente 5,3 milhões de toneladas de carne de frango, enquanto os embarques chineses ficaram pouco acima de 1 milhão de toneladas.
A avaliação do Rabobank é que a competição deve aumentar gradualmente, principalmente em mercados da Ásia, África e Oriente Médio.
Para Mato Grosso, a mudança tem duas implicações.
A primeira é comercial: empresas instaladas no Estado poderão encontrar um concorrente adicional justamente nos mercados externos necessários para ampliar a produção.
A segunda está dentro da própria fazenda.
A transformação de milho e soja em proteína animal é uma das estratégias para agregar valor aos grãos produzidos no Estado.
Quanto maior a produção de aves, suínos, bovinos confinados e etanol de milho, menor a dependência da exportação do grão sem processamento.
VANTAGEM ESTÁ NA RAÇÃO - Mato Grosso possui uma vantagem que poucos concorrentes conseguem reproduzir: produz em grande escala os dois principais componentes da ração avícola.
Milho e farelo de soja representam parcela decisiva dos custos de produção de um frango.
A proximidade das granjas e frigoríficos das regiões produtoras reduz parte dos gastos logísticos e cria condições para ampliar a integração entre agricultura e indústria.
Essa vantagem, entretanto, não garante competitividade automaticamente.
O preço do grão, energia, mão de obra, sanidade, escala industrial, logística até os portos e acesso aos mercados internacionais também entram na conta.
Os dados do IBGE mostram que Mato Grosso ainda está distante dos principais polos avícolas brasileiros.
Em 2025, o Brasil abateu 6,69 bilhões de frangos, alta de 3,1% sobre o ano anterior e recorde da série histórica.
Mato Grosso respondeu por aproximadamente 3% do abate nacional e registrou pequena retração, de 0,6%, no número de aves abatidas em relação a 2024.
O Paraná sozinho concentrou 34,4% dos abates brasileiros, seguido por Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo.
A distância demonstra que disponibilidade de milho e soja não foi suficiente, até agora, para deslocar o centro da avicultura brasileira para o Centro-Oeste.
EXPORTAÇÕES - Mato Grosso, contudo, já aparece entre os Estados exportadores de carne de frango.
Em janeiro deste ano, por exemplo, foram embarcadas 3,6 mil toneladas, crescimento de 7,5% em relação ao mesmo mês de 2025.
O Estado apareceu naquele mês atrás de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná entre os principais exportadores informados pela Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
No país, o cenário é de expansão. As exportações brasileiras fecharam o primeiro semestre de 2026 com o melhor resultado histórico para o período em volume e receita.
Apenas em junho foram embarcadas 482,8 mil toneladas, 40,6% acima de junho de 2025, gerando US$ 985,5 milhões.
Em julho, o país voltou a superar a marca de meio milhão de toneladas exportadas.
O avanço chinês, portanto, ocorre num momento em que o Brasil também aumenta produção e vendas externas.
Não se trata, no curto prazo, de substituição do produto brasileiro pelo chinês, mas da entrada de um competidor de grande escala num mercado até agora dominado por poucos fornecedores.
CHINA MUDA DE LADO - A transformação chinesa é relevante porque o país tradicionalmente ocupava outra posição na relação comercial com o Brasil.
A China é grande importadora de soja brasileira e também compra proteínas animais.
Agora, ao elevar sua própria produção de frango, passa a gerar excedentes exportáveis.
Parte desse crescimento decorre de investimentos em genética, instalações modernas, automação, processamento e escala industrial.
O Rabobank avalia que o país deverá direcionar ao exterior principalmente cortes que têm menor consumo entre os chineses.
É justamente nesse ponto que pode ocorrer o confronto com o produto brasileiro.
Países do Oriente Médio, África e Ásia estão entre os mercados nos quais o Brasil construiu forte presença.
São também regiões apontadas como potenciais destinos para o excedente chinês.
Além de disputar compradores, a China poderá competir em preço.
BRASIL AINDA DOMINA - A diferença entre os dois países permanece grande no comércio exterior.
O Brasil possui décadas de experiência exportadora, plantas habilitadas em dezenas de mercados, elevada capacidade sanitária, disponibilidade de grãos e uma indústria integrada.
Em 2026, o desempenho externo continua forte. Em maio, a receita mensal das exportações brasileiras de frango superou pela primeira vez US$ 1 bilhão, com 509,9 mil toneladas embarcadas.
O volume foi 29,6% superior ao registrado no mesmo mês do ano anterior.
No primeiro semestre, o país estabeleceu novo recorde de exportação.
A China, portanto, não substitui o Brasil como líder mundial no horizonte imediato. O alerta está na velocidade da mudança.
Em poucos anos, o país passou da condição de importador líquido para exportador líquido de frango. Se mantiver o crescimento da produção, terá volumes cada vez maiores para disputar mercados.
DESAFIO PARA MT É GANHAR ESCALA - Para Mato Grosso, a questão central passa a ser se a abundância de milho e soja poderá ser convertida em vantagem industrial antes que a competição internacional aumente.
O Estado produz volumes de grãos muito superiores à necessidade de sua cadeia de aves.
Parte significativa dessa produção percorre milhares de quilômetros até portos ou centros consumidores.
A instalação de granjas, fábricas de ração e frigoríficos permite transformar uma parcela desses grãos em proteína antes da exportação.
A estratégia, porém, exige escala, capital, integração com produtores, sanidade e mercados compradores.
Os números nacionais mostram que o Centro-Sul ainda concentra a atividade.
Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e São Paulo somam cerca de 70% do abate brasileiro de frangos. Mato Grosso permanece distante desse grupo.
Essa distância também revela espaço para crescimento.
A disponibilidade local de milho e soja pode tornar o Estado competitivo justamente num momento em que o comércio mundial de proteínas passa por transformação.
MAIS QUE EXPORTAR GRÃO - O avanço chinês cria ainda uma questão estratégica para o agronegócio estadual.
Durante décadas, a relação comercial funcionou principalmente com Mato Grosso produzindo soja e milho e a China utilizando parte dessas matérias-primas para alimentar seus animais e abastecer sua indústria.
Quanto mais a China transforma grãos importados em carne e passa a exportar a proteína, maior a competição com países que também poderiam fazer essa transformação.
Para Mato Grosso, a alternativa é ampliar o processamento dentro do próprio Estado.
Em vez de embarcar apenas milho e soja, o mesmo grão pode alimentar aves, suínos e bovinos, gerar empregos industriais e adicionar valor antes de chegar ao mercado externo.
A disputa que começa a aparecer no mercado internacional de frango, portanto, vai além dos frigoríficos.
Ela coloca uma questão para a próxima etapa do agronegócio mato-grossense: continuar sendo principalmente fornecedor da matéria-prima ou transformar uma parcela maior dos grãos em proteína antes de exportar.