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12 de Setembro, 2026 - 07:28
Depressão atinge 30% dos idosos no Estado, diz pesquisa


Quase 30% dos idosos avaliados em uma pesquisa realizada na atenção primária de Cuiabá apresentaram sintomas sugestivos de depressão. A prevalência chegou a 45% entre os classificados como vulneráveis e a 50% entre aqueles com incapacidade para realizar atividades básicas da vida diária. O levantamento, feito com 373 pessoas de 65 anos ou mais, chama atenção para a relação entre saúde física, autonomia e sofrimento emocional.



O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Cuiabá (Unic), com participação da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e da Federal de Rondonópolis (UFR). A vulnerabilidade considerada na pesquisa leva em conta idade, percepção do estado de saúde, capacidade física e funcionalidade.



Médico da família com especialidade em psiquiatria, Werley Peres afirma que a pesquisa vai ao encontro das estatísticas nacionais. Enfatiza que a depressão na terceira idade pode se manifestar de forma lenta e progressiva, dificultando sua identificação. Muitas vezes, os sintomas podem até ser atribuídos ao envelhecimento ou a outras doenças. Apatia, mudanças de comportamento, perda de interesse em atividades antes prazerosas, alterações no sono, no apetite e cansaço sem explicação estão entre os sinais e podem ser confundidos por causa da idade.



Peres lembra ainda que dores e tonturas sem causa aparente, abandono de atividades físicas e perda de motivação para cuidar da própria saúde estão entre os sinais. Doenças, como diabetes e hipotireoidismo, e eventos como infarto ou AVC (Acidente Vascular Cerebral), também podem estar associados ao agravamento dos sintomas. Luto, solidão e aposentadoria sem planejamento para uma nova rotina também merecem atenção.



O tratamento pode incluir psicoterapia, intervenções psicossociais e medicamentos antidepressivos, conforme a gravidade e as necessidades de cada paciente.



As condições de saúde e perda de autonomia alertadas pelo médico estão entre os aspectos investigados no levantamento. Entre os idosos classificados como vulneráveis, 50% tinham sinais depressivos. Entre os que tinham incapacidade para tarefas mais complexas, o índice foi 43,48%. Havia sintomas em 49,4% dos idosos com perda cognitiva moderada ou grave, 47,83% dos desnutridos e 32,86% daqueles com duas ou mais comorbidades.



Adoecimento, solidão e apoio familiar



A relação entre as causas apontadas se confirma no cotidiano. Ademar Viana, 72, enfrenta depressão agravada pelo câncer de próstata e relata que a doença trouxe um sofrimento difícil de explicar. Apesar de morar com a esposa, ter o carinho e auxílio dos filhos, ele afirma que se tornar dependente é um processo difícil. Vai além do que a gente consegue compreender ou explicar. Minha família é ótima e eu reconheço isso, imagina quem nem tem esse apoio.



A experiência dele mostra que o apoio familiar, embora importante, também não elimina o sofrimento na terceira idade. É o que ocorre no Abrigo Bom Jesus, em Cuiabá, que acompanha cerca de 100 idosos, com idades entre 65 e 108 anos. Segundo a direção, pelo menos 90% deles possuem sintomas depressivos.



Entre as residentes está Maria de Lourdes Santos, 70, que faz tratamento contra a depressão. Ela conta que, com o envelhecimento, passou a enfrentar com mais intensidade sentimentos de solidão e tristeza, além de dificuldades para dormir. A gente perde o sono, vê todo mundo dormindo e não consegue, isso é muito ruim, relata.



Maria, que não se casou nem teve filhos, afirma que a depressão começou após uma decepção pessoal que prefere não detalhar. É difícil falar disso.



Também moradora do abrigo, Deolinda de Oliveira, 83, diz não ter depressão, mas relata dias de tristeza persistente e desânimo frequente. Ela convive com osteoartrite e enfrenta as limitações provocadas pela doença. Não tem cura. Então, o jeito é ir retardando com o remédio até quando Deus quiser, afirma.



Responsável pela instituição, Márcia Ferreira relata que o sofrimento emocional aparece de diferentes formas entre os residentes. Segundo ela, a perda de autonomia, o afastamento familiar e históricos de violência podem agravar esse quadro. Em alguns idosos aqui no abrigo, a solidão contribui para sintomas depressivos e atitudes agressivas com outros idosos, inclusive, relata.



Ela afirma que o abrigo mantém apenas uma psicóloga, conta com medicamentos fornecidos pela rede pública e depende também de voluntários, entre eles psiquiatras. Segundo ela, restrições no uso de recursos de emendas e convênios para profissionais e insumos de saúde também dificultam a assistência. Para enfrentar o isolamento, promove atividades, hidroterapia, equoterapia, cinema, cursos e outras programações externas.



Pesquisa aponta caminhos



Professor Ageo Mário Cândido da Silva, um dos pesquisadores do estudo, afirma que os resultados reforçam a necessidade de ampliar a identificação precoce dos sintomas e melhorar o acompanhamento oferecido pela atenção primária, que participa da identificação e do acompanhamento dos casos, com encaminhamento para serviços especializados, quando necessário.



Uma das medidas necessárias é fortalecer a busca ativa nessa área, especialmente dos idosos que permanecem em casa e têm dificuldade para procurar atendimento. Primeiro, fortalecer ou melhorar o rastreamento, fazer uma busca ativa por meio dos agentes comunitários, por exemplo, e médicos e enfermeiros da atenção primária, explica.



Ageo também defende a qualificação dos profissionais para reconhecer e acompanhar problemas de saúde mental na terceira idade, além do fortalecimento do apoio social dentro das unidades básicas. Para ele, a identificação dos sintomas precisa ser acompanhada de uma rede preparada para oferecer cuidado.



Busque ajuda



A Prefeitura de Cuiabá informou que o atendimento em saúde mental ocorre pela Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e as pessoas podem procurar Unidades de Saúde da Família, que são as principais portas de entrada. Após avaliação, o paciente pode ser acompanhado na própria unidade ou encaminhado a serviços especializados, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), conforme suas necessidades de saúde.


Fotos por: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Fonte: Jualiana Alves/Gazeta Digital
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